6 de abr. de 2011

Moçambique para Todos

Chissano traça imagem distorcida da diplomacia moçambicana



Maputo (Canalmoz) - Num discurso pronunciado ontem em Maputo no Instituto Superior de Relações Internacionais, por ocasião do 25° aniversário da criação deste estabelecimento de ensino superior, o ex-presidente da República, Joaquim Chissano, referiu-se ao que denominou de “equidistância” da Frelimo em relação aos blocos do Leste e do Ocidente. Essa posição da Frelimo, de acordo com Chissano, teria orientado a diplomacia da Frente de Libertação de Moçambique, como movimento emancipalista e como partido dirigente do Estado moçambicano independente. Chissano deu como exemplos da alegada equidistância da diplomacia da Frelimo o facto deste movimento ter condenado a invasão da Checoslováquia pela URSS em 1968, não ter tomado partido no conflito ideológico sino-soviético, e de ter recebido apoios de Israel.
O pronunciamento de Chissano distorceu a realidade concreta da Frelimo em duas fases distintas da sua existência. A primeira, que vai da sua fundação a 1969, quando era dirigida por Eduardo Mondlane, e a segunda quando a Frelimo passou a ser dirigida pela dupla Samora Machel-Marcelino dos Santos.
Na primeira fase, a Frelimo esteve comprometida com os Estados Unidos. Se bem que tivesse condenado a invasão da Checoslováquia em 1968, já em relação à invasão e ocupação da República Dominicana, orquestradas pelos Estados Unidos, a Frelimo não veio a terreiro condenar o sucedido. Se, como alega Chissano, a Frelimo rompeu com Israel após a chamada Guerra dos Seis Dias em 1967, por “não poder aceitar o expansionismo”, o facto é que já antes desse conflito o Estado israelita era expansionista pois a anexação de territórios palestinianos acompanhou sempre a política de Israel logo a seguir à sua fundação em 1948. Para além do apoio a que Chissano se referiu, membros da Frelimo receberam treinos em Israel, como foi o caso do irmão de Samora Machel, Alexandre Josefate Machel, e 14 outros quadros da Frelimo que foram enviados para aquele país do Médio Oriente em Fevereiro de 1964 para receberem treinos no âmbito da abertura da Frente Sul.
Ainda durante a presidência de Eduardo Mondlane, a Frelimo distanciou-se da política soviético-cubana para a África Central e Austral, seguindo uma linha que era a todos os títulos favorável aos desígnios de Washington. Efectivamente, quando em 1965 a União Soviética e Cuba intervêm na actual República Democrática do Congo, a Frelimo de Mondlane recusa-se a participar no corpo expedicionário liderado por Che Guevara. O governo cubano insurgiu-se publicamente contra a posição de Mondlane, acusando-o de ser agente do imperialismo norte-americano.
Com a morte de Eduardo Mondlane em 1969, a Frelimo passa gradualmente a adoptar uma política favorável ao Bloco de Leste, e que se acentuou após a conquista da independência em 1975. Nesta fase, o discurso da Frelimo tornou-se ostensivamente “anti-imperialista” e “anticapitalista”. A frágil “equidistância” que existiu durante a era Mondlane, sofreu uma alteração radical com a tomada do poder pela Frelimo em Moçambique. Em Setembro de 1975, Samora Machel declarava publicamente que os países do Bloco de Leste eram “aliados naturais” da República Popular de Moçambique, fazendo todos eles parte daquilo que descreveu como “zona libertada da humanidade”. E precisamente em 1978, num discurso proferido em Maputo durante uma reunião do Bureau do Movimento dos Não-alinhados, Samora Machel rejeitou o conceito de “equidistância” em relação ao Bloco de Leste, declarando que “ideológica, política, diplomática, económica e socialmente”, a República Popular de Moçambique e os países desse Bloco “defendem a mesma causa e lutam pelos mesmos objectivos”.
Reiterando esse conceito de “equidistância” a nível do Movimento dos Não-alinhados a diplomacia da Frelimo apoiou Cuba na redefinição do princípio de não-alinhamento em que os países do Bloco de Leste eram vistos “como fazendo parte integrante” desse mesmo Movimento, facto que criou cisões no seu seio, em particular em relação a países como a Jugoslávia, a Somália e o Sudão, entre outros.
Relativamente ao conflito sino-soviético, a diplomacia da Frelimo tomou partido da URSS, como ficou patente na declaração emitida pelo Secretariado do Comité Central da Frelimo em 1979 relativamente aos “Acontecimentos no Kampuchea e o Conflito entre a China e o Vietnam”.
Na sequência da intervenção de tropas soviéticas no Afeganistão em 1979, a diplomacia moçambicana, na altura encabeçada por Joaquim Chissano, votou ao lado da União Soviética, da Etiópia de Mengistu Mariam e do Vietnam contra uma resolução da Assembleia Geral das Nações Unidas a condenar a presença das tropas da URSS naquele país e a exigir a sua retirada incondicional.
Já como presidente de Moçambique, o executivo de Joaquim Chissano, através do seu ministro da informação, Teodato Hunguana, ordenou a demissão do chefe da redacção do jornal «Notícias», por, na óptica do regime, ter adoptado um “anticomunismo primário” em relação ao regime despótico que vigorou numa dos componentes da chamada “zona libertada da humanidade”, a Roménia do ditador Nicolae Ceausescu. (Redacção)

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